Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN
A Mágica do Crescimento

Potterish.com ~ Arthur Melo
25 de março de 2008

Há grandes transtornos na transposição de um texto literário para a linguagem do cinema. É um trabalho que exige apuro, conhecimento, destreza e principalmente boa interpretação. Este foi sem dúvida o maior problema de “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” (Harry Potter and The Prisoner of Azkaban – EUA / Reino Unido – 2004 – Warner). Transportado para o script pelo roteirista Steve Kloves, o terceiro livro da série desenvolvida por J.K. Rowling é vítima de alterações talvez necessárias, mas precárias.

Concebido com muito frescor e tensão, “Prisioneiro de Azkaban” (o livro) guarda em seu espírito todos os principais elementos que furtam o leitor de sua realidade e o direciona para um universo completo; seja no espaço ambiente ou no psicológico. Retrato clínico e voraz de uma das melhores (e piores) fases da vida humana, Rowling contenta cada linha ficcional com os aclives e declives dos 13 anos de Harry. E é nesta memorável boa realização mantida pelo mexicano Alfonso Cuarón que reside a verdadeira mágica do filme.

Capaz de identificar todas as falhas deste que é o pior roteiro elaborado em toda a série, Cuarón interpola cada momento de suspense com uma seqüência amena, mantendo o vigor e a emoção vibrantes até o clímax. Sua composição artística é totalmente abrangente e regular: a fotografia de Michael Seresin é natural e obscura, deixando a vaga impressão de que pode-se surgir um novo mistério debaixo de cada sombra ou canto do castelo. Sua coordenação acerca dos quesitos do filme é espetacular, passando pela trilha deslumbrante de John Williams (em sua melhor forma) à direção de arte que só não impressiona mais por já estarmos acostumados com o trabalho magnífico de Stuart Craig. Aliás, a técnica do filme é quase impecável em certos pontos. A começar pelos efeitos visuais: Bicuço, o hipogrifo de Hagrid (vivido por Robbie Coltrane), ilustra o quão lúdica a computação gráfica – somada ao capricho – pode ser, escondendo até mesmo os deslizes da edição de som ou levando ao esquecimento as modificações desnecessárias no padrão de alguns figurinos.

Tanta capacidade para se criar é apenas uma introdução da veracidade dada ao contexto de Rowling. O poder de persuasão está no simples fato de se mostrar, pela primeira vez, que a magia não faz do mundo um lugar mais confortável e fácil de se viver. Não muda o caráter, não ofusca conceitos e pré-conceitos. Harry Potter descobre, enfim, que Hogwarts pode não ser o lugar mais seguro que se acredita. Cabe a ele a decisão entre aceitar falsas premissas ou mudar a situação vigente. Mas esta é uma briga que está apenas começando e o filme ilustra isso muito bem. A politicagem, a insegurança e arrogância são apenas insinuadas através da história, mas não efetivamente citadas. Perspicácia e cuidado que Alfonso maestrou com muita qualidade e paixão.

Pela primeira vez o diretor da franquia soube aproveitar o lado ruim que o universo da magia possui e jogou-o contra o bem, contrastando as cores e elevando a benevolência a um ponto em que ela se reafirma mesmo na permanência do medo e da sombra; sem enfeitá-la ou enaltecê-la como um único objeto do mundo real. Um contrário cínico do trabalho realizado por Columbus que beirava a hipocrisia.

Harry Potter definitivamente cresceu, e a qualidade dos filmes acompanhou seu processo de maturidade. Seja ela técnica ou artística; Alfonso mudou as diretrizes da série e preparou o terreno para um recomeço deste que posteriormente se tornaria um bom trabalho cinematográfico capaz de alienar os passados dois filmes para o beijo dos dementadores.

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